jueves, 9 de mayo de 2013

... A ESPOSA DO REI WUAMBA ... (parte II)

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   Amélia não voltou a pensar no assunto nos 3 dias seguintes.

    --- S enhora, tenho que comunicar-vos algo.

   Parou a actividade complicada de pentear os seu longo cabelo negro e olhou o seu marido.

   --- Devo ausentar-me do palácio e estarei umas duas semanas fora.

   --- Porquê?! Aconteceu alguma coisa?

   --- Coisas de guerra, minha rainha. Nada de muito importante.

   --- Te esperarei em permanente preocupação, meu rei.

  --- Levarei quase todos os soldados, ficará só uma pequena guarnição, peço-vos que não abandoneis o recinto do castelo.

   --- Ide descansado senhor meu rei … ficarei bem.

  Naquela mesma tarde, Amélia chamou uma das suas aias.

   --- Avisai as outras … vamos ao rio …

   --- Mas o rei...

   --- O rei não está. Sou a rainha, não é verdade?

   --- Sim, senhora.

   --- Pois então vai avisar as demais. Baixamos em meia hora.

   --- Mas … não há soldados para uma escolta.

   --- Não precisamos … tens medo?

   --- Não senhora.

   --- Quem tiver medo fica no castelo.

   --- Sim senhora.

   O ambiente no rio estava tenso. Amélia não tirava os olhos da outra margem.

   Depois de alguns minutos alguém começou a nadar na sua direcção.

   --- Olhai senhora.

   --- Já o vi. É o mesmo do outro dia?

  --- Não sei, senhora … não dá para ver … mas parece que si …

   O vulto parou a uma distancia de cerca de uns 10 metros.

   Amélia pôs-se de pé, assim mesmo a linha de água chegava-lhe pelos ombros.

   --- Que quereis? --- perguntou a quem vinha.

   --- Venho da parte do meu rei, Mutsafari … ele está do outro lado do rio … pergunta se permitis que nade até ao ponto onde estou agora mesmo só para poder ver-vos um pouco mais de perto. --- o sotaque era terrível … mas compreendia-se.

   Uma das aias estava muito nervosa --- dizei-lhe que não ....

   --- Silencio … aqui decido eu … --- levantou a voz --- dizei-lhe que sim, mas que não tenho muito tempo … tenho que regressar ao castelo.

   O homem, levantou o braço e fez, para a margem, um sinal previamente combinado.

   Nadou de regresso ao outro lado, ao mesmo tempo que, desde aí, três homens começaram a travessia … um mais adiantado e dois um pouco mais recuados.

   Em poucos minutos, um mouro, bem parecido estava a poucos metros das mulheres.

   --- Permiti que me apresente.

   --- Não é necessário, já sei quem sois. A pergunta é … que quereis?

   --- Quereis a verdade? … o mouro sorria.

   --- Claro!

  --- O que mais queria já o consegui … ver-vos um pouco mais de perto e certificar a beleza que já adivinhava de longe.

   --- Também sabeis quem sou, verdade?

  --- Sim. Sois a esposa do rei Wuamba … Poderia falar-vos a sós?

   --- Eu tenho aqui as minhas aias e vós os vossos homens.

   A um pequeno movimento de cabeça os dois homens que o acompanhavam iniciaram a sua viagem de regresso.

   Amélia fez também um gesto às suas aias.

   --- Esperai-me na margem.

   --- Senhora … isso não é prudente …

   Amélia olhou-a fixamente … a aia baixou os olhos e fazendo um sinal às outras dirigiram-se a terra seca.

 

 

 




   O mouro nadou para um pouco mais perto.

   --- Não vos aproximeis mais. Dizei que quereis de mim.

   --- Sabeis que sois a mais bela mulher que meus olhos jamais viram?

   Amélia sentiu-se corar … há muito tempo que não escutava tais coisas …

   --- Sabeis que se o meu marido, o rei, sabe que estais aqui tão perto vos mandará matar?

    --- Senhora … tenho um tratado com o vosso marido … não pisarei terra vossa … mas o rio é comum … --- baixou um pouco a voz --- mais a mais … ambos sabemos que o vosso marido não está, nem estará nos próximos dias.

    --- Como sabeis isso?

  --- Sou rei, tal como ele … tenho os meus informadores.

    A Amélia resultava agradável aquela conversação.

    --- Tenho que voltar ao castelo.

    --- Vos chamais Amélia, verdade?

    --- Sim.

   --- Amélia, hoje há lua cheia … estarei aqui, neste mesmo sitio pela meia noite … trarei um barco … vos proponho que venhais e conversaremos na embarcação … prometo respeitar-vos e tratar-vos como mereceis.

   --- Que dizeis? Nem pensar … --- Amélia olhou na direcção das aias … mas estavam longe … não poderiam escutar aquela conversa.

   --- Nem vos passe pela cabeça --- voltou a olhar na direcção do mouro … mas já não estava … já nadava para a sua margem.

   Amélia sentiu-se indignada … bateu com a mão aberta na agua, soltando a raiva do momento e começou a sair.

   As aias rodearam-na.

   --- Que vos disse?

   --- Nada importante … subamos.

   O sentimento de indignação foi-lhe passando com as horas. Da janela da seu quarto olhou a lua … linda … cheia … vieram-lhe à cabeça as palavras do rei mouro … e de repente sentiu um impulso de comparecer àquele encontro.

 

                           ( continua ... certamente )

 

 

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domingo, 5 de mayo de 2013

... A ESPOSA DO REI WUAMBA ... parte I



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   Quase completamente submergida, só a sua cabeça sobressaía da agua. Era muito agradável a sensação de frescura que invadia o seu corpo. Por ela ficaria assim horas sem fim.

   --- Senhora … seria prudente voltar ao castelo.

   A voz veio chamar à realidade aquele espírito relaxado.

   --- Tens razão. Saiamos da agua. --- respondeu com semblante tranquilo.

   Três raparigas aproximaram-se trazendo uma enorme toalha de linho branco.

   A margem estava a poucos passos e aí a esperavam outras duas mulheres e dois homens, montados a cavalo com um terceiro animal sem cavaleiro.

   --- Podeis seguir, eu subirei com as minhas aias.

   --- Como queira, senhora.

   Os homens incitaram os seus cavalos e, rapidamente, desapareceram no meio da vegetação.

   --- Vamos … temos que subir … --- as cinco mulheres sorriram respeitosamente e seguiram-na … de repente, uma delas ficou estática olhando a outra margem.

   --- Que passa Bruneida?

  --- Não sei bem, senhora. Pareceu-me ver alguém do outro lado.

   Todas param tentando vislumbrar algum movimento … mas todo parecia estar deserto.

   --- Vamos … já é tarde … o rei espera-me.

  A chegada ao castelo levou-lhes quase quarenta minutos.

   Wuamba, o grande rei visigodo esperava-as à entrada do portão principal.

   --- Estava preocupado, Amélia … dentro de mui pouco anoitecerá.

   Amélia, a bela rainha, fez uma vénia.

   --- Perdão senhor meu esposo e rei … subi a pé com as aias … perdemos um pouco a noção do tempo. Não voltará a passar.

   O rei fez um momento de pausa …

   --- Ide vestir-vos … jantaremos dentro de uma hora.

   --- Com vossa licença … --- nova vénia.

   Wuamba fez um sinal a um dos escudeiros que se aproximou silenciosamente.

   --- Quero que redobres a vigilância junto ao rio. Os mouros estão do outro lado.

   --- Não se atreverão a passar as aguas … levariam muito tempo e denunciariam a sua intenção.

   --- Pode ser que tenhas razão … mas sempre que a senhora baixe, põe dois homens mais na escolta.

   --- Será como ordenais, senhor meu rei.

 

 

 

 

 

  O jantar decorreu em silencio. Sobre a grande mesa havia muita comida. Amélia estava esfomeada … nadar abria-lhe o apetite.

   --- Um dia terás de ajudar-me a compreender que prazer se poderá sentir ao estar enterrado em agua.

   Amélia não evitou um largo sorriso.

   --- É maravilhoso ... é uma sensação difícil de explicar por palavras … porque não me acompanhais um dia?

   --- Eu?!!! Não seria digno de um rei. Que diriam os nossos súbitos? Perderiam-me o respeito.

   --- Claro que não senhor meu. Experimentai um dia … um só dia … estou certa que mudaria a vossa opinião.

   --- Definitivamente … não!

   O silencio voltou ao salão.

   Dois dias depois, Amélia deu-se conta que a guarda que a acompanhava ao rio tinha aumentado.

   A ela, e ás suas aias, não lhes pareceu importar.

   Desta vez foi ela mesmo, que, quando estava totalmente dentro de água, se deu conta de um movimento na outra margem.

   --- Olhai senhora.

   --- Sim. Agora também vi. Além, junto àquela árvore.

   --- Está muito longe … não dá para ver claramente.

   --- Pareceu-me ver um homem.

   --- Si, senhora minha … a mim também me pareceu.

   Amélia olhou na direcção contraria. Os soldados estavam distraídos … não se tinham apercebido de nada … melhor assim.

   --- A ver se aqueles não se dão conta … Wuamba jamais permitiria que voltássemos aqui.

   --- Não seria melhor voltar ao castelo?

   --- Está bem …

   No dia seguinte Amélia não se sentia bem fisicamente. Chamou Bruneida ao seu quarto.

   --- Não me sinto bem, hoje no baixo ao rio.

   --- Muito bem, senhora.

  --- Mas não quero que vos priveis desse prazer … quero que baixeis vós, sem mim.

   --- Não ficaria bem, senhora. Esperaremos que se recomponha Sua Majestade.

   --- Não! É uma ordem! Quero que vaiais.

   --- Como mande, senhora minha. Comunicarei com as outras.

   Ao sair do quarto cruzou-se com o rei e fez uma grande vénia.

   Wuamba entrou com ar preocupado.

   --- Disseram-me que estáveis indisposta.

   --- É verdade. Hoje prefiro ficar deitada, descansando.

   --- Fazeis bem.

   --- Uma coisa, senhor meu rei.

   --- Dizei, rainha.

   --- Dei ordens para que as minhas aias baixem sem mim. Poderias mandar os soldados de protecção, tal como quando vou eu?

   --- Será como desejais, senhora minha. Vos mandarei o curandeiro para que vos veja.

   --- Obrigado, senhor meu rei.

   Ao ficar sozinha, Amélia fechou os olhos … não tardou em adormecer.

 

 

 

 

 

  O despertar foi suave. Uma voz doce a fez abrir os olhos …

   --- Senhora … tenho que falar-vos. --- Bruneida estava ajoelhada junto à cama.

   --- Que aconteceu?

   --- Acabo de chegar do rio.

   --- Os soldados foram convosco?

   --- Não senhora …

   --- Falarei com o rei.

   --- Não venho falar disso senhora, sinceramente, prefiro que os soldados fiquem no castelo.

   --- Então que se passou ?

   --- Os do outro lado …

   --- Os mouros?

   --- Sim. Um deles cruzou o rio.

   Amélia sentou-se na cama.

   --- Que dizes?! Até este lado?!

   --- Não. Até ao meio do rio. Trazia uma mensagem.

   --- Uma mensagem? De quem? Para quem?

   --- A mensagem era para vós, senhora?

   --- Para mim? E de quem?

   --- De Mutsafari, rei dos Mouros da margem sul.

   --- E que quer?

   --- Quer ver-la?

   --- Impossível.

   --- Isso lhe disse eu … expliquei-lhe que vós sois a esposa do rei Wuamba, pela cara do homem, via-se que não tinha nem ideia.

   --- E que te respondeu?

   --- Pois, que transmitiria a mensagem ao seu senhor.

   --- Ah! Que não era o rei mouro em pessoa?!

   --- Não! Era um emissário.

  --- Bem! Disseste-lhe quem eu era. Não voltará a importunar-nos.

 

                       ( continua )

 

 

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miércoles, 17 de abril de 2013

... BELISANDRA ... a bruxa ...





CASTELO NOVO









     Aquele mês de Setembro estava raro … as temperaturas quase faziam esquecer as chuvas prometidas pelo borda de água … fazia calor.

        A vereda que conduzia à aldeia era estreita, sinuosa … e um poco acidentada.

      De sua casa ao povoado era cerca de meia hora de lenta caminhada.

 

 

 

 

 

   Belisandra parou um pouco antes das primeiras casas … respirou fundo … sabia o que a esperava … mas necesitava de fruta, ovos e um pouco de feijão.

    A merciaria ficava bem no centro da aldeia …

    Voltou a respirar fundo … tinha que ser …

   Ergueu bem alto a cabeza descoberta de cabelo ao vento e avançou.

   A meio da primeira rua havia uma taberna. Uns homens, escutando passos, a uma hora näo habitual, sairam para confirmar quem vinha.

 

 

 

 

   --- Olha! Olha! Que fazes tu por aqui?

   Outro homem ao seu lado tentava que falasse mais baixo.

    --- Porque tenho eu de baixar a minha voz? … Por uma bruxa?

    --- António, então?! Deixa a rapariga em paz …

   --- É Belisandra, a bruxa do monte.

  --- A pobre moça que culpa tem? São coisas de sua mäe.

  --- Quem Lisandra? Já a sua avó, Cassandra era bruxa … são todas umas bruxas.

   Felizmente a rua era curta e ao final Beli cortou à direita.

 

 

 

 

   Algumas mulheres estavam tomando o sol. Assim que a viram meteram-se para dentro e fecharam as janelas de madeira.

   Finalmente chegou à loja.

  Entrou. Dentro algumas mulheres faziam também as suas compras … ao verem-na dirijiram-se à porta.

   --- Dona Elvira, voltamos logo.

   --- Sim sim! De repente falta-me o ar.

  Dona Elvira, dona do comercio de merciaria fez um ar de paciencia …

   --- Olá Belisandra. Desculpa esta gente da aldeia.

   --- Não faz mal. Já estou acostumada.

   --- Então que precisas hoje?

 

 

 

 

    Em pouco mais de vinte minutos tinha um saco cheio de provisões e voltava para casa.

    Para não passar outra vez diante da taberna, escolheu outro caminho.

    Mas essa rua levava-a pela igreja.

  Duas mulheres caminhavam em sentido contrario.  Pensou en dar meia volta … mas no fundo … sentiu uma raiva subir-le pelo peito … --- Que raio!!! Não era nenhuma criminosa. Não tinha porque fugir. Levantou a cabeça e seguiu.

    --- É preciso ter muita lata para passar diante da casa de Deus.

    --- Estou de acordo.

   --- Tens que falar com o prefeito, teu marido, isto não pode acontecer.

    Passou ao lado das duas mulheres ignorando por completo os comentarios …

     Depressa as casas ficaram para traz.

    Respirou, agora de alivio … levava viveres para uma semana … uma semana em que não tinha porque voltar ali.

 

 

 

 

    Ao entrar em casa parecia que se transportava a outro mundo … um mundo de paz e harmonia.

    Essa tarde, estava sentada na sua cadeira preferida, cosendo uma roupa que necesitava reparos, quando a paz da sua solidão foi repentinamente interrompida por pancadas na sua porta.

    Beli esperou que batessem de novo e só entäo se levantou e abriu a porta.

    Do lado de fora, uma das duas mulheres com quem se cruzara aquela manhã, ali estava, olhando em todas as direcções.

    --- Posso entrar?

   Depois de uns segundos olhando-a nos olhos, Belisandra deu um passo ao lado.

    --- Faça o favor.

  Levou a mulher até a sala e fez-lhe um gesto convidando-a a sentar-se.

   --- Belisandra … primeiro quero que me prometa que não contará a ninguém que estive aqui … Deus !!! Se o meu marido descobre … que vergonha …

   --- O seu marido é o perfeito, verdade?

   --- Sim!

  --- Vejo que a senhora me necesita.

  --- Sim. … Como sabe isso?! Ainda não lhe disse ao que vinha.

   --- Não quer que o seu marido saiba que veio aqui … mas vem aqui por sua causa … estou enganada?

   A mulher olhava-a com os olhos muito abertos … depois baixou a cabeza …

  --- Sim. É verdade …

  --- Tranquila, senhora Deolinda.

  --- Sabe como me chamo?

  --- Sim. E digo-lhe que näo tem nada a temer. Sebastião, o seu marido não a engana.

   --- Não?!!!

   --- Não.

   Respirou muito aliviada …

   --- Mas ele precisa muito da sua atenção. Esta a passar um mau momento.

   --- Obrigada, Belisandra … e perdoe-me pelo de hoje de manhã …   Eu admiro-a muito, a minha mãe chegou a falar com a sua avó … e visitou a sua mãe … de facto eu estive nesta mesma sala com a minha mãe … você ainda näo tinha nascido.

   --- Bem sei.

  --- Mas como mulher do perfeito tenho que manter as aparencias … seria a chacota de todas as minhas amigas.

   --- Não se preocupe. É um estigma de que não sou culpada … mas a que me vou habituando.

   Antes de salir, Deolinda deixou um pequeno saco em cima da mesa.

   Belisandra ajudava todo o mundo, não cobrava … cada pessoa dava o que queria … assim ganhava a vida …

   Quando voltou a fechar a porta näo conteve um sorriso.

    Seria interessante ver a cara daquela mulher quando um dia descubrisse que a amiga que a acompanhava aquela manhã havia cruzado aquela mesma porta a semana passada … e não era a única.

 

 

     Tres dias depois era Domingo. Todo os habitantes da aldeia … quase todos … concentravam-se na grande igreja … era a missa mais forte da semana.

      padre João fazia sempre uns sermões especiais aos domingos … fortes … emotivos …

     Como sempre, o amplio atrio da templo era, depois da eucaristia, lugar de encontro semanal de amigos, companheiros ou simples conhecidos.

   As crianças jogavam por entre as arvores num ambiente de pura descontracção.

   O sol aberto num céu sem nuvens fazia do dia um excepcional motivo de reunião.

   Seriam umas duas horas da tarde quando um dos rapazes que jogavam chamou a atenção dos mais velhos:

    --- Olhem … que nuvem tão estranha …

   Instintivamente, todos olharam o céu … era verdade … uma estranha nuvem vinha desde o sul …

    Um “bruuuáááá” saiu da boca de todos …

   As mulheres recolheram as crianças e correras pelas ruas tentando chegar a casa.

   Os homens permaneceram de pé tentando identificar o que se aproximava.

    Um deles finalmente gritou:

    --- Gafanhotos.

   Todos correram a refugiar-se na igreja. Conseguiram fechar a grande porta no preciso instante em que a praga cobria toda a aldeia.

 

 

 

 

 

   Foram minutos de silencio no interior do templo … ninguem tinha idea do que fazer … nem como …

    Quando se decidiram a sair a visão era aterradora … o que uns minutos antes era verde e luminoso, agora era cinzento e frio.

    Finalmente um deles tomou a inciativa.

   --- Homens de Castelo Novo, agora, mais do que nunca, temos de estar unidos.

   --- Sebastiäo … homem de Deus … isto é uma maldição do Senhor … que poderemos nós fazer … pobres mortais?

   --- Algo teremos que fazer …

   --- Porque näo vamos falar com Belisandra?

   --- A bruxa do monte?

   --- Si … talvez nos possa ajudar.

   --- A ver … boa gente … se sempre a criticasteis … se sempre lhe fizeis a vida negra quando ela vem fazer as sua compras … agora quereis falar com ela? Quem vos garantiza que vos recebirá?

   --- Eu posso dar essa garantia?

   Todos olharam para o dono daquela voz.

   --- Joaquim … que dizes? Se tu sempre foste um dos mais acérrimos criticos a essa criatura …

   --- Vos recordais quando o meu filho Antonio ficou muito doente o verão passado?

   Todos se lembravam perfeitamente … Antonhito … tinha febras muito altas … o médico da aldeia näo sabia o que fazer …

   De repente o rapazito recuperou e até à poucos minutos era um dos que brincavam no átrio.

   --- Todos recordamos o que passou, Joaquim … muito embora, ainda hoje nos preguntamos como recuperou …

   --- Visitamos essa mulher.

   Fez-se silencio. Ninguem olhou o homem.

   --- Foi Belisandra quem nos disse como fazer … fui a sua casa com a minha mulher … deu-nos umas ervas … voltamos … fizemos a infusão … o menino bebeu e … pela manhã … estava sem febre.

   --- Eu tambem procurei essa mulher.

   A voz vinha do outro lado do grupo.

   --- Tu também, Miguel?

  --- Eu não, a minha mulher … sabeis que temos 6 filhos …

   --- Claro que sim.

  --- Depois de nascerem as minhas cinco filhas estavamos desesperados … queriamos um rapaz … já näo sabiamos o que fazer.

   --- Manuela foi a casa de Belisandra … ela nos disse o que fazer … e … a verdade … é que funcionou … meses depois nasceu Jorge.

    Novo momento de silencio …

  Depois Sebastião, o perfeito eleito por todos os presentes voltou a falar.

   --- Muito bem. Estou de acordo. Um grupo de nós irá a casa de Belisandra.

 

 

 

 

 

      Cerca de duas horas depois, um grupo de quatro homens subia a vereda, afugentando as centenas de gafanhotos que cobriam todo.
Beli olhou-os com medo nos olhos.
     --- Tranquila, senhora Belisandra … não tenha medo … não viemos fazer-le mal … --- ela continuava parada, olhando-os … --- necesitamos a sua ajuda.
     --- Então é melhor que entrem.
   Explicada a situação, Beli olhou-os … o que via era um grupo de homens com miedo … sem soluções …
    --- Porque recorrem a mim?
   --- Todos sabemos dos teus poderes … nem sempre te tratamos da melhor maneira … mas …
   --- Não é a mim que deveis recorrer … eu só sou a mão de um poder mais alto … deveis rezar … No altar da vossa igreja esta a imagem da senhora da Mesericordia … não é verdade?
   --- Sim, é a nossa santa padroeira.
   --- Pois rezai-lhe as vossas orações e amanhã, à mesma hora em que apareceram hoje esses animais, saí em procissão por toda a aldeia …
   Todos a olharam surpreendidos …
   Beli levantou-se, sinal que a reunião tinha terminado.




 

 

    A procissão foi preparada com todo o cuidado … todos colaboraram … as mulheres com as flores … os homens fazendo turnos para levar o andor da santa … as crianças com as velas …

     --- Preparem-se para abrir as portas.

   Batiam as duas no relógio da torre cuando a procissão começou a sair …

   Todos olhavam em volta … os animais, parados … pareciam tentar compreender o que passava.

    Então passou o impensavel.

   A procissão ia avançando … e sorpreendentemente os gafanhotos iam caindo mortos.

   Toda a tarde os fieis percorreram as ruas de Castelo Novo. Ao cair da noite … a aldeia estava limpa da praga.

   O padre João, ao voltar a imagem ao seu lugar habitual no altar mor falou com todos.

    --- Nossa Senhora da Misericordia livrou-nos de esta maldição. Para demonstrar-lhe a nossa gratidão, todos os anos neste mês de Setembro repetiremos esta procissão em seu louvor … e assim farão os vossos filhos … e os filhos dos vossos filhos …

 

 

 

 

 

     Com o cuidado habitual, Beli descia a vereda … era o dia de compras … era tambem a primeira vez que baixava à aldeia depois da “invasão”.

    Na primeira rua, a taberna do costume.

   À sua passagem sairam alguns homens, como siempre … mas em silencio tiraram o chapeu em sinal de respeito.

    Beli sorriu sorpreendida mas seguiu com o seu passo firme.

   Algumas mulheres cruzaram-se com ela …

   --- Bons dias Belisandra.

   --- Bons dias, senhoras.

  As coisas estavam, realmente, diferentes. 

 

 

 

 

 

    Esta história é conhecida por quase todos os que nasceram em Castelo Novo.

      Alguns leitores, os mais atentos, se darão conta de que é a segunda historia que escrevo que descreve uma praga de gafanhotos. Isso só vem certificar que tal “invasão” existiu e que abrangeu uma vasta zona da beira interior.

     Castelo Novo é uma aldeia muito bonita e bem cuidada, situada na encosta oriental da serra da Gardunha, a cerca de 650 metros de altitude.

      O seu passado estende-se até aos tempos do romanos.

     As ruas, traçadas segundo as curvas de nível, revelam antigos solares, paredes-meias com casas populares em pedra, pequenas varandas de madeira e restos de calçada romana.

     Alguns locais säo de visita obrigatória como a Casa da Câmara, Cadeia e Pelourinho, o Chafariz da Bica, a Igreja da Misericórdia e o castelo.

     À saída da aldeia, numa pequena elevação, fica o Cabeço da Forca, zona de execução de condenados, marcada por duas caveiras esculpidas na rocha.

      No seculo XVII encontramos a aldeia de Castelo Novo como sede de concelho.

   O concelho de Castelo Novo era constituído pelas freguesias de Lardosa, Castelo Novo, Orca, Póvoa de Atalaia, Soalheira e Zebras.

   Em 1835, o concelho foi extinto e anexado ao de Alpedrinha, passando com este e seu termo, a fazer parte integrante do concelho do Fundão, a partir de 24 de Outubro de 1855.

     Vos deixo algumas fotos de Castelo Novo:

 

 















 

 

 

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